O Relojoeiro do Tempo

A porta tinha um sino tão discreto que só tocava para quem realmente precisava entrar. Dentro, centenas de relógios marcavam horas diferentes.
«Não conserto tempo», disse o relojoeiro. «Conserto atenção.» Ele falava sem levantar os olhos de uma engrenagem minúscula.
Ana entregou um pocket watch que pertencera ao pai. Havia parado no minuto em que ele disse «volto já» e nunca voltou.
Durante três dias, Ana voltou à oficina só para escutar o tique-taque. No terceiro, o relógio voltou a andar — e com ele voltou a lembrança de uma conversa inteira, não apenas da despedida.
Ao sair, percebeu que nunca estivera quebrado. Só estivera pausado, esperando ser escutado.


